Você usava seu boné sempre pra trás
um pouquinho de cabelo sempre caindo pelo lado
com as mãos nos bolsos, ou amarrando seus sapatos
que mesmo assim estavam sempre desamarrados
a única coisa mais áspera que sua braba,
eram suas palavras
ponta do dedo sempre queimada
você tinha seu jeito de falar
contornava as sardas nas minhas costas como
uma criança aprendendo a escrever
sempre ia mais devagar quando eu pedia
e mais rápido quando eu gemia
quando queria pensar, ia a praia
ou ao meu colo
não tinha celular, me fazia esperar um dia inteiro
para contar uma piada
nunca penteava o cabelo
só jogava pro lado e voltava a segurar minha mão
me fazia chorar, mas
ainda mais me fazia rir
dobrava a manga até o cotovelo
não usava casaco
sabia as fases da lua de cor
me conhecia como a palma da mão
me entendia como um filme do Godard
não se chateava quando eu sumia
as vezes se preocupava
as vezes se decepcionava
mas nunca se chateava
ria das minhas manias
sempre fazia a cama
fazia misto-quente
fazia a festa
fazia drama
me fazia uma dama
pintava minhas unhas do pé
se contradizia
vivia num paradoxo que se oscila constantemente
morava num mundo só nosso
me ensinava a comer com hashi
e a parar em pé em cima de uma prancha
lia pra mim seus livros favoritos
comprava meus cigarros
quando eu mesma esquecia que tinha acabado
me levava chocolate
me levava com carinhos
e me leva com abraços
você foi,
só que ainda tô esperando
cê voltar...
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